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Ponto Crítico

Ponto Crítico

          Primeiramente, olá a todos ou melhor dizendo: “Bonjour, ça va?” O principal motivo que me traz aqui, em frente a este auditório, é a vontade de compartilhar com o mundo um pouco da minha trajetória. Provavelmente o que passa pela cabeça de vocês nesse exato momento é: “Quem é esta brasileira desconhecida, com cara de maluca, e o que a faz estar se apresentando no palco do TED?” Bom, talvez minha história realmente não seja tão emocionante ou mesmo extraordinária quanto os relatos de tantos ilustres pensadores e gênios que já pisaram neste palco. No entanto, se for o suficiente para tocar o coração de pelo menos um dos que estão aqui presentes e servir para inspirar este ser humano a se guiar pelos seus sonhos, então minha vinda até este palco terá valido a pena.

            Bom, para falar um pouco de minha jornada até chegarmos no presente ano de 2025, é preciso que voltemos no tempo, de volta a 2020. Como todos aqui sabem, 2020 foi o ano da pandemia mundial (hoje matéria de história nas escolas) e foi definitivamente um ano de muitas dificuldades em todos os âmbitos. Para mim, no entanto, foi muito mais que isso. Tratou-se de um momento de reinventar-se, adaptar-se, permitir-se, evoluir, parar de se deixar levar pela corrente da vida e tomar as rédeas, refletindo sobre escolhas e questionando-me.

            Costumo me referir ao ano de 2020 como meu ponto crítico. Aos presentes que não são da área e não estão familiarizados com o termo, ponto crítico é um conceito utilizado na termodinâmica para se referir a uma determinada temperatura e pressão que delimita a distinção entre a fase líquida e gasosa. Na prática, significa que ao passar deste ponto, a substância comporta-se de forma completamente diferente, adquirindo novas propriedades. Ela não se caracteriza como líquido e nem como gás, porém uma mistura entre eles que dá origem a algo novo. Acredito que não há analogia melhor para explicar a transformação pela qual eu passei. Neste ano fatídico, minha vida virou de cabeça para baixo e eu fui levada a questionar tudo em que eu acreditava, meus pilares desabaram e minhas certezas deram lugar a um cenário completamente inusitado. Em meio ao caos, sentindo-me incapaz, desesperada e sozinha eu pude perceber quantas pessoas incríveis que me apoiaram e sempre acreditaram em mim, pessoas as quais eu cativei por ser quem eu sou. E se elas, que são tanto um exemplo para mim, acreditavam no meu potencial, quem era eu para desacreditar? E foi aí que sob estas condições críticas eu pude reconectar-me comigo mesma e dar luz a uma nova Ana, uma Ana que conservava sua essência, que absorveu alguns aspectos da Ana antiga, mas se tornou algo diferente. Cresceu em mim a certeza de que eu podia ser quem eu quisesse e a vontade de realizar meus sonhos.

            A Ana sonhadora deu lugar a Ana que realiza e os anos subsequentes me levaram a estar aqui falando com vocês, neste exato instante. Ainda em 2020, mais clara e consciente de quem eu queria ser, me envolvi em projetos sociais (foi quando conheci o CEO do Futuro e comecei a fazer parte da Turma 33) e busquei projetos em que eu pudesse me desenvolver pessoal e profissionalmente. Pintei o cabelo de ruivo, o que pode parecer uma mudança corriqueira para alguns, porém para mim significou muito. Tal mudança compreendia um sonho, desde que eu me conheço por gente, e que eu tinha medo de tornar realidade por receio do que os outros iam pensar e também pelo meu próprio medo de mudar. Logo após, tudo começou a fluir e acontecer quase que de forma natural. Consegui o estágio que eu tanto queria, desenvolvi  um TCC nota 10, com o qual publiquei um artigo, continuei a aprender francês por conta própria até me tornar fluente, aprendi a programar (o que hoje sabemos que é pré-requisito no mercado de trabalho). No âmbito pessoal, fiz viagens ao redor do mundo, conheci a reserva natural dos meus sonhos e tive contato com felinos selvagens (sim, eu brinquei com uma onça bebê), pratiquei todos os esportes radicais os quais eu sempre tive vontade: escalada, asa-delta, pular de paraquedas, tirolesa, e por aí vai. Finalmente, consegui o tão sonhado diploma e já como engenheira química trabalhei por um tempo em indústria.

            Atualmente, eu consegui uma bolsa de mestrado na área de materiais, aqui na França, e estou trabalhando com biopolímeros em um laboratório renomado. Além disso, juntamente com minha colega, amiga e dupla de quase todos os trabalhos da faculdade, Marina, estamos nos preparando para inaugurar nossa empresa de cosméticos naturais, o que constitui mais um dos tantos sonhos que já se tornaram realidade. Vir para a França me trouxe vários desafios, aprendizados e novidades. Uma delas, a qual eu não posso deixar de mencionar e também de agradecer porque se não fosse essa pessoa estar aqui hoje não seria possível: ao meu atual companheiro, parceiro e também sócio da empresa. Não sei se será para sempre, mas enquanto o teu olhar fazer o meu coração bater mais forte, teu abraço me fizer sorrir, tu me fazeres feliz, me inspirar a ser a melhor versão de mim mesma e que eu também te faça bem, então tu me terás do teu lado.

            Para finalizar, eu gostaria de deixar uma mensagem para todos aqui presentes: Não desistam dos seus sonhos! Vivam! Porque até onde sabemos, só se vive uma vez. Avaliem quem são as pessoas que estão do seu lado, não deixe que ninguém, absolutamente ninguém, diga quem vocês devem ser ou que vocês não são capazes. Isso é com você! É muito mais fácil ficar acomodado e permanecer na estabilidade confortável do que correr riscos, se desafiar e ir de encontro com o seu ponto crítico. O que vocês devem ser perguntar é: Eu sou feliz assim? Eu acordo todos os dias radiante? O que vai me fazer feliz? E lembre-se quando se vai além do ponto crítico, todo o desconforto de estar em tal posição de transformação vale a pena, porque os seus limites se expandem, ganham novo significado e o impossível torna-se possível. Então deixo o questionamento para cada um de vocês: Permanecer ou transformar-se? Obrigada.

 

COMUNIDADE CEO DO FUTURO
Ana Carolina Corso Minotto
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Sonhadora incansável, apaixonada por ciência, amo animais, livros e chocolate. Sou curiosa e não resisto a um desafio. Estudo engenharia química na PUCRS e estou sempre disposta a aprender coisas novas.

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